quarta-feira, novembro 07, 2007

FLORES PARA AGUINALDO SILVA - DUAS CARAS


Assisti ontem, dia 05, ao capítulo de Duas caras. Fiquei impressionado e maravilhado com a coragem, a sensibilidade e a criatividade de Aguinaldo Silva e de sua equipe de roteiristas na construção da cena em que a família de Bernardinho o flagra com um homem na cama. Gostei tanto que, se tivesse o telefone do Aguinaldo, teria ligado para ele logo depois e dito: “Parabéns, cara! Sua ousadia faz a diferença”.
Vocês assistiram à cena? Em se tratando da direção, ela, a cena, não trazia nada demais (aliás, o diretor de atores deveria ter melhorado a atuação daqueles bonitões que “interpretam” os irmãos do Bernardinho, Batista e Benoliel; a “canastrice” deles quase derruba a cena), entretanto, o texto e a situação criada foram um acontecimento na história da teledramaturgia brasileira.
Não vou descrever em detalhes a cena para não entrar no terreno (o blog!) do colega Aguinaldo Silva, mas, para levar adiante meu comentário, preciso contar que a madrasta de Bernardinho, Amara, convenceu seu irmão (o dela) a seduzir o enteado (no caso, Bernardinho) para, em seguida, flagrá-los na cama, “desmascarando” a homossexualidade de Bernardinho, e, assim, ter um motivo para escravizar o rapaz ao lar e às “terapias de cura”. Depois do flagrante, travou-se um incrível diálogo entre Bernardinho e Carlão (o irmão de Amara) que expressou bem o quão movediço é o terreno do desejo; o quanto as identidades sexuais – a dos homens heterossexuais em especial - precisam ser (re)afirmadas no discurso para existirem de fato; e o quanto a distinção de quem é ativo ou passivo numa transa é importante para o “macho” latino-americano estruturar suas relações de poder:Humilhado, Bernardinho cobrou solidariedade ao “amante”, que lhe respondeu mais ou menos isso (Aguinaldo, se a memória me trair, desculpe-me por ter deturpado teu texto): “Não tenho nada ver com isso, rapaz. Isso para mim foi só uma experiência, uma curiosidade. Eu sou espada! O gay, aqui, é você! Eu fui ativo”. Bernardinho, numa atitude de resistência típica dos gays mais inteligentes, retrucou: “Que diferença isso faz?”. Detalhe para quem não assiste à novela: Bernardinho é um rapaz bonitinho, pequeno e sensível; Carlão é, como sugere o nome, um “bofe” grande e másculo.
O diálogo levanta uma velha questão que eu vou expressar em Português de rua: “Quem come também é gay?”. Parece uma pergunta ridícula, mas, não é. Esta dúvida é fonte de angústia e neurose em muitos homens e tem levado outro tanto a matar seus parceiros gays quando estes insistem que a resposta à pergunta é “sim, quem come é gay também”. Logo, trata-se de uma pergunta que se relaciona a um grave problema de saúde e segurança públicas. Saibam que, para aumentar a eficácia das campanhas de prevenção a Aids junto aos homossexuais, o Ministério da Saúde teve de dirigir as mensagens também aos HSH (homens que fazem sexo com homens, mas, não se consideram homossexuais nem bissexuais). Ainda bem que, espertamente, Aguinaldo, disfarçou a gravidade e a profundidade da questão levantada num clima de comédia de costumes (Thiago Mendonça, Mara Manzan e Nuno Leal Maia deram um show!). Carlão e todos que pensam como ele estão certos quando afirmam que o fato de terem transado com outro homem - principalmente tendo sido ativos e sendo, os parceiros passivos, gays assumidos -, que este fato não faz, deles, gays também. Estão certos porque gay é uma identidade, da qual a homossexualidade é só um dos componentes. Para ser gay, precisa-se partilhar mitos, ritos, territórios, ícones e símbolos (ou seja, freqüentar boates, bares e praias voltadas para gays; gostar de artistas e divas transgressores, Oscar Wilde, Lorca, Pedro Almodóvar, Madonna e, no caso dos brasileiros, Cássia Eller, Cazuza, Ângela RoRo e Renato Russo; e estar antenado aos fluxos da moda e da cultura pop). Inclusive, é possível ser gay sem ser homossexual (tenho várias amigas que são bichíssimas e Cláudia Raia é o melhor exemplo de uma mulher pública que é gay sem ser homossexual). Entretanto, Carlão e todos que pensam como ele estão errados quando acreditam e afirmam que não são homossexuais só pelo fato de terem sido ativos na relação com outros homens. Eles podem não ser gays, mas, são homossexuais, sim, pois, homossexual é aquele que pratica a homossexualidade – transar com alguém do mesmo sexo – não importando se ativo ou passivo. Mesmo que a pessoa não pratique, com freqüência, a homossexualidade – ou mesmo que ele tenha praticado a homossexualidade só uma vez num internato, força armada ou prisão – no momento em que pratica ou praticou é ou foi homossexual. Sei que o instinto sexual é natural e que as classificações e as identidades (hetero, homo, bi, gay e etc) são artificiais, forjadas na cultura. Então, vocês me perguntam: “Por que precisamos de classificações e identidades?”. Respondo: talvez para marcar nossas posições de sujeitos e as posições dos outros; ou para que elas nos sirvam de âncora, ancorem nosso ser no mar de linguagens; o certo é que não conseguimos viver sem elas. Lembrem-se do que diz Drummond: “Lutar com palavras é a luta mais vã; no entanto, lutamos mal rompe a manhã”.

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